Existe Vida Após a Morte do Sonho?
26/07/2025O estúdio P.A. Works tem em seu catálogo obras de slice of life que tangenciam a perfeição. Com uma construção de mundo factível e detalhista, consegue trazer para as suas histórias elementos reconhecíveis pelo público e potencializar a empatia pelos personagens. Estes que são centrais, porque são eles que guiam a narrativa, já que a característica deste tipo de abordagem de vida cotidiana é o "realismo".
Aquatope toca no realismo a partir de uma parte espinhosa da vida, que normalmente ignoramos por se tratar de algo que vai contra nossas motivações para viver. Toda a história sobre aquários, transição da juventude para a vida adulta e construção de identidade profissional é o plano de fundo para falar sobre o tema "morte do sonho".
Todos temos sonhos, utilizamos deles para as atividades diárias e ter motivação para buscar o amanhã. Essa é a parte bonita, que todos sabemos. A parte não tão perfeita é que não necessariamente todos os sonhos se realizam. Muitas vezes perdemos o interesse durante a caminhada ou, por obra do acaso, o sonho não depende apenas da gente e entra no campo do impossível. É sobre isso que Aquatope trata, do que fazer quando estamos diante de uma fatalidade e o sonho não é mais possível. Debater-se e ficar insistindo até perder o fôlego? Encontrar um novo sonho? Adaptar-se para buscar algo que seja possível de alcançar? Veremos a resposta das protagonistas, então agora vamos à história.
Contexto
Inicialmente somos apresentados à Fuuka Miyazawa, uma garota que está deixando o trabalho como idol. A motivação da decisão não nos é revelada pela própria Fuuko, mas sim pelos comentários das pessoas que trabalham na produtora enquanto ela deixa o prédio: ela até é bonita, mas não se destaca. Fuuka deixa o local com agonia, que nós sentimos junto dela, já que percebemos a amargura da decisão por não ser "culpa dela", mas sim de algo completamente abstrato como "não se destacar o suficiente".
Fuuka segue sem rumo. O sonho dela era viver como idol e trabalhar interagindo com as pessoas, só que agora não é mais possível. Nessa caminhada sem rumo, ela vai de uma cidade a outra, sem avisar ninguém e somente com uma pequena mala com alguns itens pessoais. Após se afastar bastante, chega ao litoral e acaba diante em um aquário velho, em seus últimos suspiros, chamado Gama Gama.
No lugar, ela conhece Kukuru Misakino, a neta do diretor do aquário, um senhor de idade avançada que no passado foi um dos profissionais mais gabaritados no setor de cuidados com aquários. Kukuru cresceu com seus avós e o Gama Gama representa para ela parte da sua própria vida, com experiências únicas que moldaram a sua personalidade. Mas seu avô já está velho e não consegue administrar o local, que se soma com o baixo interesse da população para visitar um aquário tão desgastado e com poucas atrações. O fechamento do local já está decretado e vai acontecer em poucos dias, este é o fato.
Porém, Kukuru não aceita e acredita que pode reverter a situação se conseguir fazer com que o Gama Gama tenha uma receita maior. Ela sonha em trabalhar com peixes, ela ama os animais e o trabalho, portanto sua motivação está no máximo. Este fato é o que chama atenção da Fuuka, que vê na Kukuru alguém diferente dela, que não foge mesmo diante da fatalidade anunciada. Este pequeno interesse é o estopim para que ela tome a decisão de trabalhar no aquário e ajudar Kukuru no projeto de conseguir evitar o fechamento do Gama Gama.
Assim como Kukuru, Fuuka e nós aceitamos a crença de que é possível salvar o aquário e de que com o esforço vai ser possível reerguer o local. O avô da Kukuru não se intromete nas ideias e ações da Kukuru, uma atitude que parece nos dar esperanças de que a decisão pode ser revertida. Mais a verdade é que esse desinteresse por parte dele é só o capricho de alguém que está cansado de trabalhar e guiar as pessoas. Ele deixa Fuuka e Kukuru livres para que elas construam o seu crescimento e cheguem nas devidas conclusões, atuando como um guardião que observa e atua em último caso. Com isto, definimos de modo geral o contexto da primeira parte da história.
O Gama Gama como o fim da juventude
A grande missão da parte inicial é o engajamento da Kukuru no propósito de conseguir movimentar o moribundo Gama Gama. Podemos até considerar que se trata de um objetivo nobre, porém mais importante aqui é a questão da inocência dela em relação ao funcionamento do mundo. Na sua visão romântica sobre aquários, basta atingir uma quantidade X de visitantes que tudo se resolve. Esta mesma inocência é que impede ela de perceber que as experiências vivenciadas por ela no aquário são pessoais e nem todos podem se sentir da mesma forma ao visitar o lugar, o que implica que o Gama Gama só é insubstituível para ela.
Essa inocência resulta em um egocentrismo gigantesco por parte da Kukuru, pois como o objetivo é apenas aumentar o número de visitantes, todo o entorno passa a ser acessório. Percebemos isto quando ela deixa Fuuka cuidar de animais sem treinamento, tenta vender comida sem licença e também no momento em que chama a veterinária em licença maternidade para cuidar de um pinguim. Tais atitudes, que tangenciam o crime, são tomadas devido à falta de experiência dela sobre o funcionamento do mundo.
O romantismo em relação ao seu objetivo é apenas um reflexo do seu idealismo gerado da pouca vivência que possui. Isto faz com que frequentemente ela confunda imprudência com coragem, tomando decisões sem pensar nos impactos adjacentes, um pensamento infantil para alguém que está começando a vida em sociedade.
Neste ponto é que o contraponto com Fuuka é importante, porque mesmo com idades parecidas, Fuuka veio de um contexto em que precisava lidar com estas relações sociais de trabalho no seu cotidiano. Mesmo que não saiba nada sobre aquários, a sua seriedade em lidar com temas e ações relacionadas às interações interpessoais torna ela em uma espécie de símbolo para Kukuru, que passa a ver Fuuka como uma irmã mais velha, que a aconselha na vida.
Kukuru só pensa no próprio sonho, porém Fuuka consegue ter uma visão mais holística em relação às suas ações. Mas somente isto não é suficiente para transformar Fuuka em uma pessoa sem problemas. Ela apresenta um amadurecimento maior em relação a Kukuru, só que ainda é uma jovem que desistiu do sonho e fugiu para qualquer lugar, caindo por acaso em um aquário que estava para ser fechado.
Enquanto Kukuru se debate com os últimos suspiros do seu sonho, Fuuka precisa lidar com o luto da morte do seu. Esta é a dialética entre elas, em que as duas seguem fazendo suas atividades para tentarem se enganar em relação aos próprios sonhos. Kukuru quer acreditar que basta se esforçar em trazer visitantes que o aquário não fechará. Já Fuuka espera que ao ocupar seu tempo com o trabalho e ajudar Kukuru, ela não será atormentada pelo fato de que desistiu do seu sonho de criança.
Podemos pensar que a situação duas protagonistas é uma alegoria para o final da juventude, em que elas começam a assumir algumas responsabilidades, porém ainda com visões de mundo muito inocentes para conseguir lidar com o peso das consequências. O diretor, e avô da Kukuru, pouco interfere nas atividades, já que o ambiente é bem controlado em relação à possibilidade de problemas que podem acontecer. Em outras palavras, é o playground para Kukuru e Fuuka se desenvolverem, mas elas não se dão conta disso.
O evento que causa certa perturbação neste ambiente controlado é o aparecimento da Chiyu Haebaru, uma cuidadora do Tingarla, o novo aquário que irá inaugurar em breve. Chiyu, como parte da preparação para abertura, visita empreendimentos existentes para troca de experiências, o famoso benchmark do mundo corporativo. A sua estadia no Gama Gama se torna uma afronta para Kukuru, uma vez que toda a inocência de Kukuru é exposta e ela é forçada a se confrontar com a sua falta de experiência quando está diante de Chiyu.
Chiyu, por outro lado, volta ao Tingarla com a sensação de que o Gama Gama representa a decadência da história de um profissional com excelente passado, o avô de Kukuru. Do ponto de vista técnico, o que acontecia naquele lugar beira o absurdo e nós como espectadores também temos que engolir esta verdade: o Gama Gama não é uma instalação com o nível de seriedade adequado e não possui condições materiais de continuar existindo.
O conflito entre Kukuru e Chiyu é apenas uma criança confrontada por um adulto muito mais experiente. Mas a abordagem é um tanto subjetiva propositalmente para construir uma ponte para a segunda parte. Essa subjeção se dá por acreditarmos que Chiyu é um pouco arrogante, afinal se ela possui tanta experiência, não teria controle emocional para lidar com uma criança inocente como Kukuru?
Nós somos conduzidos para julgar a Chiyu com poucas informações, tal como Kukuru faz. As referências sobre ela neste ponto da história são escassas e caímos neste erro junto da Kukuru. Ainda, esperamos a interferência do avô, que poderia trazer temperança para o conflito entre as duas e, como estamos acostumados, transformar todo o caso em uma boa lição de moral das histórias infantis. Mas não é isso que acontece, afinal esta não é uma fábula e as pessoas precisam resolver seus problemas sozinhas.
A tensão criada por Chiyu é responsável por iniciar o fim da primeira parte, em que, meio a contragosto, Kukuru percebe que algo está errado. O prego no caixão para o seu sonho egocêntrico é colocado após uma forte tempestade, em que ficam evidentes os problemas estruturais do Gama Gama, como infiltrações, falta de geradores e equipamentos instáveis.
Acontece um grande esforço desesperado para conseguir, diante de toda a intempérie, manter os animais em condições mínimas de sobrevivência. Com o fim da tempestade, Kukuru finalmente entende que o Gama Gama já está no seu limite. Durante todo o tempo até ali ela justificava a manutenção do aquário devido à sua paixão pelos peixes, mas era só uma mentira conveniente que ele criou. Era por sua própria vontade, porque ali, naquele ambiente decadente, os animais não poderiam ter uma vida estável.
O choro da Kukuru é agoniante porque ela percebe que era apenas inocência e que estava sendo infantil até então, incapaz de aceitar que o mundo não orbita ao redor das suas vontades. Um choro de desespero por finalmente estar diante do fechamento do aquário em que criou boas lembranças. É um choro amargo por saber que arrastou Fuuka, por quem passou a cultivar um grande afeto, para uma missão sem sentido e egocêntrica. Trata-se do choro doloroso que marca a morte de um sonho.
O Tingarla como o início da vida adulta
O que fazer depois da morte do sonho? Kukuru não sabe e nem Fuuka conseguiu uma resposta, porém após um tempo dos acontecimentos no Gama Gama, elas acabam se reencontrando em um novo aquário, o Tingarla. Fuuka assume um cargo de cuidadora, sob supervisão de Chiyu, e Kukuru assume uma função administrativa na equipe de marketing.
A dinâmica dessas três é o que vai compor o desenvolvimento desta segunda parte da história. Inicialmente, é preciso contextualizar como Kukuru e Fuuka chegam ao quadro de funcionários do Tingarla, mesmo não possuindo um currículo chamativo para um aquário de grande porte. Aqueles que participam do mundo corporativo já devem imaginar, mas para deixar claro, a influência do avô de Kukuru é forte o suficiente para garantir o emprego para ambas.
Obviamente esta situação é bem incômoda para Chiyu e outros funcionários que sabem da história de indicação pela qual as duas (e outros ex funcionários do Gama Gama) entraram no Tingarla. Uma rusga que se torna cada vez mais acentuada com as sucessivas falhas da Kukuru, que lida com um choque gigantesco, porque em um ambiente de trabalho real em que ela é apenas uma engrenagem e precisa se relacionar eficientemente com seus pares e times diferentes, a infantilidade do que ela fazia no Gama Gama fica clara.
Kukuru percebe que ela nunca precisou assumir responsabilidades e nem teve que resolver problemas ao nível de relações interpessoais. Tudo que queria fazer ela fazia, afinal era a neta do diretor, além de estar em um aquário tão pequeno que qualquer plano não teria como ocasionar um impacto muito grande na estrutura organizacional. Todavia, o Tingarla possui uma quantidade maior de animais, trabalhadores e áreas, que devem ser equalizados em toda atividade que ela propor.
A sua dificuldade de adaptação ao trabalho não se deve totalmente a sua pouca experiência, mas também devido ao novo desejo egocêntrico: ela quer o cargo de cuidadora. O seu sonho de manter o Gama Gama morreu fisicamente, mas assim como Fuuka no início da história enfrentou o luto pela sua saída da indústria idol, Kukuru passa por algo semelhante, em que a morte do sonho não foi totalmente superada e ela vê no trabalho de cuidadora uma forma de retomar aquele sonho de criança.
Essa fixação pelo trabalho de cuidadora vai novamente colocá-la em rota de colisão com Chiyu, que atua como liderança dentro da equipe de cuidado com animais do Tingarla. Kukuru diversas vezes tenta passar por cima das decisões da Chiyu ao propor suas atividades de promoção do aquário, inclusive executando tarefas fora do seu escopo (e dentro dos papéis da Chiyu) para fazer com que suas propostas funcionem. Para além da falta de profissionalismo, essa intromissão tem um impacto fortíssimo em Chiyu e nesse momento descobrimos um pouco mais sobre o passado desta personagem.
Chiyu era casada e trabalhava em outro aquário também como cuidadora. Sua sina se inicia quando descobre a gravidez e, por mais que tente manter a sua rotina de trabalho, a chegada de um filho muda consideravelmente a sua rotina e as suas relações. Como ela passou a ter responsabilidades pessoais, não conseguia lidar bem com os turnos de trabalho, que precisavam coincidir com as suas obrigações com o filho. Em pouco tempo, esta falta de flexibilidade foi aproveitada por seus colegas de trabalho para crescerem em cima das limitações dela, conquistando cada vez mais a gerência e a liderança, mesmo com Chiyu sendo uma funcionária altamente capacitada.
Após um tempo isolada no trabalho, Chiyu é demitida e a tensão se volta para sua casa. O marido pede divórcio para fugir das responsabilidades paternais, derramando sobre ela todo o peso do cuidado do filho. Com a ajuda da mãe ela conseguiu se reerguer e, devido seu bom histórico profissional e técnico, obteve a vaga no Tingarla, onde está determinada a não cometer os erros do passado. Isto significa não confiar nas pessoas e não comentar sobre o seu filho, deixando apenas a sua gerência direta saber das suas limitações em relação aos turnos e atividades profissionais.
A Chiyu vê na Kukuru tudo aquilo que lhe degrada, como a influência de alguém para conseguir um bom emprego e também o suporte de uma amiga (Fuuka) que sempre a auxilia, mesmo quando ela erra. Chiyu não cometeu erros, ela foi vítima, e ainda assim não teve ajuda além da sua mãe. Por outro lado, Kukuru é arrogante e infantil, mas está rodeada de pessoas que a apoiam, mesmo quando a menina tenta "roubar" o trabalho da Chiyu. Essa injustiça a machuca.
Neste contexto, um dos projetos de marketing, o monitoramento do nascimento de um novo pinguim, acaba por realizar uma alteração nos turnos de trabalho do time de cuidadores. Porém, como Chiyu possui as suas responsabilidades com o filho, ela não consegue se adequar a esta rotina. Kukuru maldosamente vê nisso uma oportunidade de "roubar" a vaga da Chiyu, se oferecendo para assumir os turnos da cuidadora.
Kukuru decide falar com o gerente de Chiyu, coloca-se pronta para assumir trabalhos fora da sua função e insinua a "falta de responsabilidade" com o trabalho de Chiyu. Seu sorriso arrogante dura pouco, porque naquele momento, por meio do diretor, ela descobre sobre a dupla jornada da Chiyu, que transforma o rosto sorridente da Kukuru em um rosto de medo e vergonha. Sua inocência agora chegou em outro nível, pois o que ela acabou de fazer com uma colega de trabalho era perverso. E essa realidade abalou a concepção moral menina, que percebeu a distância em que estava de ser minimamente profissional e responsável.
Infelizmente não há tempo para corrigir, porque os planos da menina chegam ao conhecimento de Chiyu, que culmina com um confronto aterrador entre as duas. Kukuru sequer responde, sua vergonha ao saber que agiu sem ponderar a vida pessoal de Chiyu e que estava errada a impedem de falar. A única coisa que ela pode fazer agora é tentar melhorar como pessoa e profissional. Eis o ponto de inflexão para o seu crescimento.
A briga com Chiyu faz que Kukuru se volte para as próprias convicções a respeito do funcionamento do mundo e de como se relaciona com as pessoas. Ao perceber que sua vontade cega por algo a levou a machucar profundamente alguém que já possuía calos, ela entende que falta para ela a capacidade entender que ela faz parte de uma sociedade e que pessoas são diferentes, com histórias e contextos distintos. Não é sobre perseguir sonhos desenfreadamente, mas sim buscar formas de encontrar sentido para a vida sem se tornar um rolo compressor para os outros.
Até então, Kukuru sempre foi muito fechada para o mundo, ela ainda é a criança egocêntrica que persegue suas vontades de modo maquiavélico. Mas ela entende que não pode continuar assim, então decide mudar. A infância ficou no passado, agora é tempo da vida adulta e seus desafios.
As relações para além do trabalho
O simples fato de saber sobre algo transforma radicalmente a nossa postura. Assim acontece com Kukuru, que passa a entender os problemas de Chiyu e consegue se desculpar e recriar sua relação com ela, tratando-a como colega e não rival. A partir de então começa uma discussão que é considera espinhosa e temperamental: as relações sociais criadas durante o trabalho.
Existe quem defende que nesta sociedade em que o trabalho ocupa uma posição central, todas as relações criadas entre pessoas que compartilham o mesmo ambiente são apenas temporárias. Isto implica que não é possível desenvolver vínculos reais e profundos a partir do trabalho, pois ali só existem "colegas" que estão, por conveniência do destino, com o mesmo objetivo devido à subjugação do emprego.
A discussão em Aquatope não é sobre a validade ou não dessa afirmação, mas que esta não é a melhor forma de lidar com a vida de trabalho. Chiyu é altamente capacitada e vive sob uma linha tênue em relação às suas atribuições e sua vida pessoal. Kukuru possui criatividade e conhecimento técnico, mas está focada em um tipo específico de função que a impede de encontrar satisfação no presente. As duas estão tão engolidas por um pensamento utilitarista que as prendem em uma espiral de desilusões, que torna o tempo destinado ao trabalho quase como uma guerra.
Após o confronto entre Chiyu e Kukuru, esta percebe que há alguma coisa errada e inicia um processo para tentar se aproximar mais das pessoas, em especial da Chiyu. Ao fazer isto, conhecemos por meio dela a história dos outros personagens secundários da obra, seus desejos, suas dores e frustrações. Criam-se laços para além das funções do Tingarla, em que elas podem discutir sobre situações do cotidiano, compartilhar ideias e criar um grupo de apoio para momentos críticos.
Kukuru sai da sua adolescência egocêntrica e passa a integrar um grupo que não é composto por membros da sua família ou de ex funcionários do Gama Gama. Ela cresce no sentido de entender como o trabalho que ela executa não afeta apenas ela, mas sim uma comunidade maior. Para além de idealismos, ela percebe que pode encontrar satisfação desde que leve o presente mais a sério, descobrindo como suas ações podem ter, nem que seja pequeno, um impacto nas pessoas ao redor. Ela já não é mais criança e agora faz parte da sociedade, onde conseguiu ir além das relações mecânicas impostas pelo mundo corporativo, superar os erros e encontrar uma forma de se satisfazer sem a necessidade de um sonho norteador.
Superar o passado para encontra o futuro
Tanto Kukuru quanto Fuuka conseguiram se adaptar às novas relações sociais, o que marca um início convincente da maturidade emocional e profissional de ambas. Fuuka sempre foi diligente, então o caminho para ela foi mais fácil, em comparação com Kukuru. Ela mantém boas relações com seus supervisores e com seus pares, demonstrando seriedade ao executar suas tarefas de modo que todos reconhecem esse empenho.
Fuuka se dedica ao trabalho como cuidadora, mas não da maneira estereotipada do workaholic que ocupa o imaginário corporativo. Ela se entrega com a vontade de criar um novo caminho para sua vida, completamente diferente da indústria do entretenimento na qual atuava. Ao ter essa abertura, ela cria a oportunidade de traçar novos objetivos, descobrir novas paixões e estar em paz consigo mesma, superando de vez o passado.
Neste processo de autodescoberta, Fuuka consegue perceber aquilo que somente ela pode fazer e que só ela pode executar. Como idol ela lidava com pessoas, agora ela lida com animais, um conjunto de habilidades que teoricamente parecem antagônicas e não se complementam em um currículo profissional. Mas por levar com seriedade e emancipação o seu trabalho, ela encontra um caminho.
Fuuka passa a usar da sua capacidade de lidar com o público, especialmente crianças e jovens, para transformar a sua função de apenas cuidadora em um espetáculo que encanta as pessoas. Em outras palavras, ele encontra seu lugar junto da educação ambiental e divulgação, contribuindo para além do cuidado com os animais e fazendo com que os visitantes do Tingarla retornem para suas casas com uma visão diferente sobre as criaturas aquáticas e a relação entre elas, o ser humano e o meio ambiente.
Por outro lado, Kukuru não se encontra tão facilmente. Ele se desenvolve na área de marketing a ponto de assumir projetos maiores, mas está longe de se envolver com a sua função. Mesmo possuindo uma vida fora do trabalho, o tempo gasto nas suas atividades no Tingarla são meramente formais, porque a sua mente ainda não superou o passado e a sua visão de felicidade criada no Gama Gama.
Existe falta de sentido para Kukuru, que ainda tenta imprimir a sua visão romântica sobre aquários nas propostas que planeja. Esse apego ao passado impede que ela trace um futuro, porém dois eventos serão responsáveis por fazer a Kukuru deixar as memórias e renascer em uma nova direção.
O primeiro evento é a parceria com uma agência de casamentos, com a ideia de criar um produto diferenciado, uma cerimônia de casamento dentro do aquário. Isto significa repensar o ambiente, normalmente feito para observação dos peixes, conservação e educação ambiental. Kukuru fica responsável por elaborar a proposta, com certa liberdade para reorganizar o espaço e implementar uma dinâmica que transforme a experiência dos noivos algo único e integrado ao aquário.
Kukuru, mesmo com liberdade, é limitada pela sua visão romântica sobre aquários e entrega uma proposta prontamente rejeitada pela agência. Ela se foca demais na experiência dos visitantes de aquários que vão contemplar os animais, esquecendo-se da experiência dos noivos, que buscam criar memórias centradas neles e nãos nos peixes. A rejeição é sumária, o que a deixa com uma sensação de inutilidade. É uma falha completa ocasionada pela sua visão de mundo egocêntrica. Além de não conseguir seguir com a parceria, ela percebe que mesmo depois de todo o avanço pessoal, ainda continua a mesma Kukuru que só pensa em si e nas coisas que lhe agradam.
Logo após a negação do projeto, o segundo evento atinge Kukuru sem piedade: a demolição do Gama Gama. Para além do significado material, a demolição é para Kukuru algo simbólico. Com a construção no chão, ela sente como se toda a sua história também estivesse demolida. A partir daquele momento ela precisa construir novas memórias, deixando a sua visão de mundo criada no Gama Gama para trás. Não a rejeitando, mas sim superando-a.
Ela toma a decisão de se dedicar ao presente e se permite encantar pelo que pode fazer além do que já sabia do passado. Finalmente ela supera a morte do sonho, renasce como outro indivíduo e encontra não um objetivo a perseguir cegamente, mas sim satisfação no caminhar. Com essa mudança de postura, ela retoma o projeto do evento de casamento e o refaz com uma perspectiva radicalmente diferente da anterior.
Até então Kukuru buscava fazer com que as pessoas tivessem as mesmas experiências que ela teve em um aquário, esta era a sua visão egocêntrica. Porém, ela percebe que cada indivíduo é diferente e precisa viver as próprias experiências, que serão diferentes das suas. Com esta nova visão, o plano para a realização do casamento é aceito e se torna oficialmente um produto do Tingarla. Finaliza-se a trajetória de crescimento da Kukuru, coroando os expectadores com uma sequência de cenas que não me atrevo a descrever.
O fim
Aquatope entrega muito mais do que uma simples história de cotidiano, principalmente ao se propor trabalhar um tema que não esperamos ver em obras de ficção, como a morte dos sonhos. As personagens principais e secundárias passam pela mesma provação de precisarem se reinventar e buscar um novo sentido para levantarem da cama e continuarem vivendo.
Não se trata de uma visão estereotipada sobre motivação que o mundo corporativo espalhou tanto, mas sim uma tentativa de recuperar o significado do termo. O trabalho não é o foco da história, ele compõe o plano de fundo e serve para posicionar as personagens no contexto social que ocupam, de modo que entendemos como as ações delas são influenciadas pela atividade laboral.
Assim, acompanhamos uma história não só de crescimento temporal com a superação da infância e chegada à vida adulta social, mas também uma jornada de amadurecimento interior para lidar com as frustrações que nos alcança. Neste sentido, enfrentar o luto é uma ação necessária para conseguir não se afundar em um ciclo de autodepreciação.
Ainda, podemos pensar que acompanhamos Kukuru durante todas as fases do luto, iniciando com a negação do fim do Gama Gama. Por não aceitar, ela cria a fantasia que seria possível reverter o destino. Ao ter sua infantilidade e inocência expostas pela Chiyu, entra na etapa da raiva em que simplesmente explode. Com o fechamento do aquário, faz uma barganha consigo mesma, criando uma ilusão sobre a possibilidade de continuar o seu sonho do Gama Gama no Tingarla. Mas quando começa a fracassar e se afastar cada vez mais do seu mundo idealizado, tendo a demolição do Gama Gama como marco, ela é atingida pela depressão e por pouco não se perde.
No período entre a demolição do Gama Gama e a sua retomada ao trabalho, é Fuuka quem auxilia Kukuru na superação da tristeza. Sem entrar nos detalhes dos acontecimentos, temos uma das cenas mais contemplativas da obra, em que as duas observam o nascimento de tartarugas no breu da noite em uma praia afastada. Para além do surgimento dos filhotes, naquele momento percebemos que Kukuru renasce e supera completamente as suas convicções de criança. Ela sabe o que precisa fazer e aquilo em que ela é boa, só precisou se despedir das suas fixações do passado.
Kukuru percebe que não é sobre os animais ou sobre ela, mas sobre experiências. Sorte ou não, ela estar no grupo de marketing foi uma escolha acertada, porque a sua potência só seria revelada quando ela se voltasse para criar vivências impactantes para os visitantes, que fariam eles se lembrarem para sempre do aquário devido aos sentimentos ligados às memórias que obtiveram.
Talvez a melhor forma de finalizar seja recortando uma frase da Fuuka, feita durante o último diálogo da obra: "quando eu fui ao Gama Gama, eu tinha perdido o meu sonho". Enquanto Kukuru precisou lidar com uma obsessão infantil, Fuuka em segundo plano lidou com dramas semelhantes, mas de um modo mais introspectivo, que percebemos apenas pelos detalhes das suas expressões, decisões e ações.
No fim, fracassos e morte de um sonho são coisas frequentes e parte do amadurecimento está em saber lidar com estas situações. Se somos mais como a Kukuru, que agoniante se retorce até o último segundo, ou se nos aproximamos mais da Fuuka, praticando o desapego e se permitindo uma troca de rota radical, somente o tempo e as intermitências saberão.