Boa Comédia com Momentos de Brilhantismo Crítico

16/10/2025

É preciso alinhar que Hinamatsuri se trata de uma comédia, portanto seu objetivo é provocar o riso. Para isto utiliza muito do estilo non sense, que coloca os personagens em situações absurdas e completamente inesperadas, construindo a graça por meio do contraste entre o senso comum (do espectador e de alguns personagens) e a normalidade da loucura dos eventos.

Essa pontuação é importante porque Hinamatsuri entrega algo extra, mas sem se preocupar muito em desenvolver. Acontece que junto do humor, a obra entrega críticas fortes e contundentes ao modo de organização da sociedade. Estas situações permeiam a obra, de modo que muitas vezes fazem parte da piada, mas são tão bem feitas e precisas que se destacam em demasia.

Apesar de não ser este o foco, é inocência avaliar a obra sem levar em consideração estas críticas realizadas, principalmente por serem feitas com uma maestria narrativa impressionante, que não possui medo de acessar temas espinhosos da cultura ocidental moderna. Questões sobre cuidado com crianças, pragmatismo, racionalismo e situação de rua são abordados de frente, utilizando do humor como veículo para a crítica.

Dito isto, é momento de comentar sobre personagens e narrativa. Para tentar quebrar a linearidade, Hinamatsuri começa com uma cena muito bem animada de ação que se passa no futuro. Há uma garota lutando com diversas pessoas, mas não sabemos nada sobre ela ou a situação. Subitamente, a história retorna ao passado e acompanhamos a vida de Hina (outra personagem), uma menina do fundamental que, curiosamente, se trata de uma esper.

Por acaso, ela consegue fugir de uma organização que a utilizava como arma humana e é adota por Yoshifumi Nitta, um membro da Yakuza. Ele não é, nem de longe, um exemplo de pessoa responsável, mas faz algo por Hina que até então ninguém fez: tratou-a como criança. A menina agressiva e destrutiva que agia como uma arma vai aos poucos conhecendo o mundo de forma saudável, interagindo com outras crianças na escola e com diferentes pessoas pela vizinhança. É um ambiente mais favorável para que ela se desenvolva.

Hina não é a única esper, a organização envia outras duas crianças para capturá-la, Anzu e Mao, que são tão exploradas como Hina. Também devido ao acaso e o non sense do mundo da obra, as duas não cumprem suas missões e escapam do domínio da organização e vivem suas vidas livremente.

Com isto temos o centro da história de Hinamatsuri: crianças escapando da situação de exploração do trabalho e podendo viver como indivíduos em desenvolvimento. Cada uma passa por dramas pessoais e trilham caminhos diferentes que as transformam em pessoas com personalidades e visões de mundo distintas.

O humor vai se desenvolvendo no cotidiano maluco dessas meninas que estão crescendo e buscando um lugar no mundo. Hina possui zero capacidade de relações interpessoais, o que gera situações como ela pensando nos presentes mais absurdos para o aniversário de Yoshifumi. Já Hitomi, amiga da escola de Hina, é o oposto, que com suas ótimas habilidades de comunicação acaba por ser envolvida em todo tipo de confusão e mal-entendido devido às interações com Hina e, por consequência, com pessoas ligadas a Yakuza.

Anzu é abandonada, mas sua trajetória é tão importante que dedicarei uma seção unicamente para ela. Mao acaba ilhada e possui um episódio inteiro para ela que faz uma paródia ao filme Náufrago. Esse episódio parece jogado, mas no último esta história é retomada e descobrimos que a garota mais velha do primeiro é ela, que após anos vagando, descobre o paradeiro de Anzu e Hina e segue rumo ao encontro com as amigas. É um final anticlimático, que possui mais uma aspiração técnica de tentar fazer um roteiro diferente do linear, mas deixa uma sensação de algo inacabado.

Como narrativa completa, Hinamatsuri não passa perto do mediano. Os acontecimentos são muito atômicos e existe pouca sensação de progresso. Todavia, ao juntar a parte crítica, a obra ganha outro respiro. Percebemos o crescimento das meninas por meio dessas situações de tensão dramática revestidas com o non sense, em especial em três personagens: Hina, Hitomi e Anzu. Está na hora de falar sobre elas.

Hina e a crítica ao desenvolvimento

Hina é a esper mais poderosa, sendo considerada uma arma de destruição em massa. Junto do imenso poder surge uma grande instabilidade emocional, criada por ser separada da sociedade, mantida em laboratórios e utilizada sempre para ataques conforme a conveniência dos adultos chefes da organização. Mas ela é apenas uma criança.

Yoshifumi desde o início percebe algo que ninguém parecia perceber, uma vez que só olhavam para a menina como ferramenta: o fato da Hina ser uma criança. Ele não precisa dos poderes de esper, que causam mais problema e dor de cabeça do que auxiliam em algo. Desta forma ele dá para Hina um ambiente acolhedor que permite o seu desenvolvimento como pessoa, colocando-a na escola e dando atenção para ela.

Uma análise superficial se limita na situação financeira de Yoshifumi. Ele pode proporcionar este ambiente confortável para Hina justamente por ter uma conta bancária elevada, o que dá a impressão de que seria dinheiro o responsável pelo desenvolvimento da criança. Todavia, Yoshifumi não utiliza seu recurso financeiro para terceirizar o cuidado, ele se envolve com a criação da menina, de tal modo que sua riqueza é apenas uma das características que ele possui como indivíduo.

É neste envolvimento que ele percebe o que é ser pai, passando por erros e acertos durante a jornada. Em determinado momento ele chega a pensar em quanto gasta com a menina, uma sequência que serve um humor crítico à racionalidade da sociedade. Yoshifumi desabafa em um bar que ele não ganha nada cuidado dela, que se trata apenas de gasto sem nenhum retorno. As pessoas naquele bar, em sua maioria mafiosas e de caráter duvidoso, recebem a confissão com desgosto e o expulsam do lugar. Podem ser criminosos, mas não são monstros a ponto de considerarem crianças como gasto.

Já Hina não causa problemas por vontade, ela somente nunca teve a oportunidade de pensar sozinha. Desde que possui consciência ela seguiu ordens de adultos, que geralmente envolviam destruir coisas. Mas com Yoshifumi isso não é necessário, ele a coloca na escola e sua vida não envolve mais executar comandos. Ela interage com outras crianças, com as pessoas da vizinhança e com seu pai adotivo sem a égide do interesse. Não desejam nada dela, são relações horizontais saudáveis.

Obviamente que Hina não é uma menina modelo. Nem poderia, dado que até ser adotada por Yoshifumi viveu uma vida totalmente disfuncional para uma criança. Mas a sua despreocupação é também resultado da criação que Yoshifumi proporciona. Ele é, nas palavras dos seus amigos, gente boa, mas não é diligente e regrado. O jeito de agir que Hina apresenta é também um reflexo de como ela enxerga o pai, afinal, "crianças crescem imitando os adultos".

Assim, a criança que sempre foi explorada devido a uma capacidade específica (ser uma esper) consegue um lugar para se desenvolver. Com isto ela deixa de ser uma arma e se torna apenas uma menina com características particulares que consegue ser feliz. Ela só precisava de alguém que acolhesse e lhe permitisse um ambiente favorável para o seu crescimento.

Hitomi e a crítica ao trabalho

Hitomi é uma aluna do fundamental e amiga de Hina, o que leva a uma série de coincidências e contatos. O humor da obra é muito concentrado nesta personagem, que trabalha o absurdo com primor. Por diversos acasos, Hitomi chega ao bar que o Yoshifumi frequenta e acaba por se tornar a bartender do lugar.

Temos um absurdo. Uma criança do fundamental que trabalha no preparo de diversos coquetéis alcoólicos em um bar noturno. E isso é levado com a maior naturalidade pelas pessoas que frequentam, já que Hitomi é extremamente habilidosa com os preparos e ainda possui um talento surreal para relações interpessoais, o que dá para ela a fama de ser uma ótima confessora.

Com clientes importantes, entre eles diretores de grandes empresas do país, Hitomi rapidamente cai nas graças de pessoas com poder de decisão e consegue trabalhos cada vez maiores e contatos cada vez melhores. Em determinado momento ela sai da casa dos pais, muda-se para um apartamento relativamente de alto padrão e passa a trabalhar como executiva, no mais puro espírito workaholic. Sua conta bancária cresce, assim como seu cansaço, de modo que ela entra em casa e simplesmente desmaia antes mesmo de chegar até a cama.

Só que ela é apenas uma criança do fundamental.

Hitomi não está satisfeita com essa vida, ela só foi levada pelos acontecimentos. Não era um plano seu construir uma carreira corporativa, juntando contatos por meio do trabalho no bar como uma ouvinte dos executivos que frequentavam o local. Mas o absurdo aconteceu e agora ela não consegue se libertar desse ciclo vicioso chamado trabalho da sociedade moderna.

Uma última esperança para ela foi sua mãe, a quem discretamente pede ajuda para sair desse ciclo. Porém, quando esta percebe a quantidade de contatos importantes feito pela filha, ela nada faz, pois entende que nesta sociedade as conexões garantem mais o futuro do que a possibilidade de uma criança ser criança.

É o exemplo máximo de que o sucesso engole tudo, até mesmo a infância. Diferente de Yoshifumi, a família de Hitomi não é rica e nem possui poder político para garantir um ambiente favorável a longo prazo. Desde forma, não se importam de deixar que a menina perca o presente em prol do futuro. Por mais absurdo que seja, não é uma decisão que acontece apenas na ficção. Não é estranho encontrarmos crianças atoladas em centros de futebol, por exemplo, na esperança de um dia serem descobertas e se tornarem jogadores famosos. Se perdem a infância por causa disso, é um preço pequeno a se pagar.

Anzu e a crítica ao lar

Anzu representa o melhor que Hinamatsuri pode entregar. O seu arco foi o responsável por transformar uma obra de humor com poucas pretensões em algo diferente. Assim como Hina, ela é uma esper controlada pela mesma organização, porém é bem menos poderosa do que a outra. Quando Hina escapa, Anzu recebe a missão de recuperá-la, mas falha. Devido ao acaso, ela não consegue voltar e se vê sozinha em uma cidade sem um Yoshifumi para recebê-la.

Anzu inicia sua vida na rua, sozinha, utilizando seus poderes para roubar e brigar por algum espaço, um exemplo de encrenqueira. Ela não possui lar ou alguém para cuidar dela, o que ela recebe da sociedade é desprezo. Diferente de Hina que teve sorte em encontrar Yoshifumi, que possui todos os recursos necessários para zelar por uma criança, Anzu não encontrou ninguém. Também, diferente de Hitomi que acabou nas graças do ciclo de contatos, as pessoas que Anzu conheceu não possuem nenhum poder político para a ajudarem.

Após ser perseguida pelos lojistas irritados com o vandalismo dela, Anzu consegue um pequeno refúgio em um acampamento de sem-tetos. Ali ela desenvolve uma visão de mundo pautada na escassez e no trabalho constante em troca de moedas. Vasculhar lixo, catar latas e recolher descarte para vender ao ferro-velho são algumas das atividades que ela passa a desenvolver.

A menina problemática e violenta que aparece no início se transforma. Ao conhecer a dor dos renegados, sua personalidade é alterada, uma vez que ela viu e viveu o lado deteriorado da sociedade. Todas as oportunidades e benesses que Yoshifumi, Hina e Hitomi possuem gera do outro lado uma brutal falta de expectativa e abandono.

Mesmo sendo uma criança excepcional e diligente, Anzu não possui conexões e por isso não tem valor. Quando estava sobre o controle da organização, era apenas explorada devido aos seus poderes. Ao se tornar uma anônima, sua habilidade sobrenatural nada significa. Ela é apenas um estorvo, a representação de uma falha da sociedade em dar condições para todas as pessoas de terem vida digna.

Discretamente, há outra crítica dentro do arco da Anzu. Os sem-teto que inicialmente acolhem ela, mostrando como construir uma barraca e conseguir trocados com os trabalhos precarizados, são todos velhos. Pessoas que não são capazes de produzir com a mesma intensidade já não possuem espaço na sociedade; por isso, são renegados.

Retornando, a vida de Anzu se resume a acordar cedo, sair para conseguir alguns trocados e se animar ao encontrar um eletrônico descartado que lhe renderá um pouco mais de dinheiro do que latas. E tudo o que ela consegue mal é o suficiente para comprar comida e velas, evitando a fome e a escuridão completa das noites em sua tenda.

Esta situação altera a forma com que ela lida com o mundo. Ao conversar com Hitomi ela se mostra feliz por encontrar um lugar com mais latas, o que lhe rendeu alguns trocados extras. Por outro lado, Hitomi que neste ponto já está com sua conta bancária preenchida, finge empolgação pela amiga, mas com remorso por entender que a situação dela não é algo que uma criança deveria encarar.

As conversas com Hitomi, ao mesmo que são momentos de interação com uma criança da sua idade, incluem incerteza nas concepções de mundo de Anzu. Até então, como tudo que fazia era trabalhar para conseguir se alimentar, ela não tinha ambições. Ao passar tempo com Hitomi ela acaba por desejar mais, quer ter condições de passear e se divertir com a amiga. Mas isso requer dinheiro, coisa que ela não possui.

Temos outra crítica sutil. Enquanto Anzu se ocupava apenas em trabalhar e comer, ela sorria e podia dizer que tinha uma vida feliz. Ao desejar mais, como se diversão, ela já não é capaz de sorrir, pois percebe que seu modo de viver nunca vai lhe proporcionar outra coisa além da rotina de acordar cedo, trabalhar por migalhas, comer e repousar no escuro.

Sua sorte começa a se alterar quando um casal sem filhos conhece a história da menina e resolve adotá-la. Toda a sequência dela saindo da barraca e chegando em sua nova casa, recebendo uma refeição decente e um quarto com cama para dormir, entrega um drama íntimo que não se espera de uma obra com tom humorístico. Não é entregue non sense ou piada neste momento, mas a verdade de uma criança que, depois de toda uma vida de exploração, recebe carinho e cuidado, sem precisar dar algo em troca.

Ela ainda carrega consigo a visão de escassez que desenvolveu. Ao acordar ela chora porque dormiu bem e confortável em uma cama, coisa que nunca pôde fazer. Também calcula o preço de cada prato que sua nova família lhe entrega, pensando em quantas latas precisaria recolher para comprar uma refeição como aquela.

Anzu é um exemplo de boa garota, não causa confusão para os pais, ajuda-os e trata-os com mesmo carinho que eles lhe entregam. Em determinado momento, ao reencontrá-la, Yoshifumi se questiona como Anzu é tão diferente de Hina, uma menina tão afetuosa e prestativa. Mas ele se lembra do início, em que ela vivia causando confusão pela rua e roubando. Não é que Anzu seja diferente biologicamente, mas sim que crianças devolvem aquilo que elas recebem.

Assim como Hina não merecia ser explorada por seus poderes e Hitomi não deveria ter sua infância roubada em prol de uma visão distorcida de sucesso, Anzu não careceria de ser abandonada a própria sorte. No fim, Hinamatsuri usa o humor para demonstrar que, não importa o contexto ou a personalidade, crianças precisam de cuidado.

Hinamatsuri Animado por Estúdio Feel (2018) Adaptado do Mangá de Masao Ohtake Minha opinião: Divertido