Aprendizado é se Encontrar
15/05/2026É tentador rotular Moyashimon como uma boa obra, mas no momento errado. A sua primeira temporada apresenta um tom sóbrio, com uma discussão fortíssima sobre vida, identidade, relacionamento e futuro. Talvez esta não fosse a melhor abordagem para conseguir público em 2007, o que explicaria uma mudança de estilo para a segunda temporada, que apresenta traços mais leves e um roteiro mais voltado para cotidiano e vida escolar.
De todo modo, isto não interfere na qualidade entregue nas duas partes, que preza pela construção do processo de descobrimento da individualidade e desejos dos personagens. É abandonar a premissa de agir como fim e entender toda tomada de decisão como meio. As pessoas não possuem clareza sobre o futuro, mas isso não deveria ser algo ruim, sobretudo porque a universidade, local de desenrolar da história, é por excelência o ambiente para intercâmbio de experiências e descobrimento de potencialidades.
Sawaki e Kei, amigos de infância, ingressam no curso superior sob o peso de continuar os negócios da família de produção de saquê. Eles teoricamente iniciam a etapa de passagem para a vida adulta com o final do caminho traçado, de modo que todo o período ali se torna mera formalidade. A falta de perspectiva gera certa apatia que seria cultivada até o fim, pois os dois apenas seguiriam como estudantes comuns até obter o diploma e retornarem para casa. Porém, o professor Itsuki, responsável pela linha de pesquisa de fermentados, resolve intervir.
O professor atua como orquestrador. Ele não age diretamente com ensinamentos, palestras ou qualquer tipo de abordagem tutelar. Por outro lado, ele percebe que Kei e Sawaki se encontram em um situação semelhante a de sua orientada da pós-graduação, Hasegawa: preso aos rótulos e esperanças da família. Ao trazer os calouros para seu grupo de pesquisa, inevitavelmente coloca-os em contato com Hasegawa, ação que gera conflito de ideias. Assim ele consegue fazer com que um enxergue no outro a falta de liberdade, que resulta no questionamento da aceitação que fizeram do próprio futuro.
Sua atitude não muito focada em relação conquistas acadêmicas é outra forma dele prover paulatinamente certa liberdade aos alunos. Ele conhece os negócios e famílias dos estudantes, mas nunca limita as orientações de estudo na proposta de especializar o conhecimento nas áreas úteis para eles. Kei, Sawaki e Hasegawa são convidados a explorar o mundo dos fermentados de acordo com a curiosidade, sem pragmatismo ou juízo de valor. Inicialmente é difícil, afinal estão todos presos às amarras das expectativas, mas então surge outra aleatoriedade oriunda do ambiente universitário.
Misato e Kawahama surgem por acaso e demonstram o impacto do poder transformador da universidade. Normalmente Sawaki, Kei e Hasegawa jamais se encontrariam com dois rapazes completamente fora do perfil diligente que habita seus círculos sociais. Mas naquele ambiente de estudo isto se torna possível, afinal a faculdade, por excelência, reúne uma gama de pessoas diferentes. A dupla encara o futuro com mais leveza e livre-arbítrio, algo que funciona como catalisador para os questionamentos estruturais dos três estudantes presos.
Os dois não são particularmente bons em nada, mas se apartaram da necessidade de validação externa. Eles encaram o tempo de estudo como momento para descoberta do caminho que deverão seguir. A universidade não é apenas preparo para o mercado de trabalho, por mais que a sociedade tente reduzi-la a isto. Ainda, mais do que sucesso acadêmico, eles se importam com os outros e por isso sempre se mostram dispostos a auxiliar qualquer um dos três, independente de terem a solução ou não para seus problemas. Eles simplesmente agem.
Ao colocar Hasegawa, Sawaki e Kei em contato com Misato e Kawahama, o professor Itsuki reúne aquilo que o sistema tenta segregar: o entendimento de que o processo de descoberta envolve abandonar as ações como finalidade e aceitá-las como meio. É a negação do pragmatismo que pesa sobre os três e limita as suas expressividades. Simples conversas, debates ou discursos não são suficiente para remover estas amarras, mas a convivência com o outro, com o diferente, obriga que contestem o destino que lhes foi imposto por terceiros.
Apesar deste comportamento, a parte acadêmica não é neglicenciada. Misato e Kawahama são apaixonados pela área de pesquisa, porém não encaram a ciência com o rigor do cientista, o que não é mérito e nem demérito. Principalmente para Hasegawa, eles demonstram uma forma diferente de se apropriar do conhecimento, que sai do laboratório para o cotidiano e revela que os saberes obtidos na universidade são encontrados na vida das pessoas, mas com um rótulo diferente.
Chega-se assim na grande catarse: o rompimento dos rótulos. Durante o processo de descoberta, sem se prenderem ao que a sociedade ou família esperam deles, Hasegawa, Sawaki e Kei podem expressar suas próprias vontades e potencialidades. Os eventos, festivais, estudos, projetos de pesquisa e até as desventuras mirabolantes envolvendo Misato e Kawahama, servem para construir essa visão de mundo diferente para os três que estão presos às expectativas e normas da família. Eles passam a reconhecer o outro e o diferente como naturais.
Neste cotidiano de iterações despretensiosas é que se faz a quebra da tensão, com momentos de humor que aliviam as preocupações dos personagens. É importante comentar este tópico porque a obra toca em assuntos que normalmente são utilizados como piada, em especial por se tratar de grupos minoritários, marginalizados e oprimidos. A dupla Misato e Kawahama é excêntrica, mas jamais agressiva ou preconceituosa. O travestismo de Kei não é tratado como chacota.
Aos poucos e sutilmente, a narrativa demonstra as ações de Kei como diferentes, principalmente quando Sawaki está envolvido. A sua forma de se preocupar com o amigo difere do modo como Misato e Kawahama, por exemplo, se importam com os companheiros. Apesar da tenuidade dos acontecimentos, Hasegawa percebe a repressão de Kei e o confronta. Novamente, é o contexto plural da universidade que o leva a sentir com mais força essas contradições, ao ponto de não ser mais possível ignorar a pergunta do Itsuki: o que quer fazer dali em diante?
De todos os personagens apresentados, Kei é encarado como aquele com um dos maiores potenciais. Isto não se dá apenas pela sua cognição, mas pelo seu perfil centrado e de grande tenacidade para aprender e se adaptar. Como um estudioso da linha de pesquisa em fermentação, poderia definitivamente trazer resultados para a universidade e para o negócio da família. Mas não é isso que ele deseja.
Assim que abandona a faculdade, com apoio externo do professor Itsuki para que possa reconstruir seu caminho de futuro, Kei rompe as amarras e rótulos. Quando reencontra Sawaki e os outros ele está travestido como mulher. Se no passado o provocavam por causa do seu jeito feminino e da sua relação com o amigo, ele agora nega o impacto que isso gera sobre si. É um marco que assume para delimitar que a partir daquele momento ele está no controle do próprio destino.
Como pioneiro na jornada de descobrimento, Kei ainda assume o grande tabu de escolher seguir sem uma formação superior. Ele deixa de lado a tradição da família para atuar como comerciante enquanto se expressa como mulher, o que se transforma em um argumento de superação e resistência muito mais eficiente do que qualquer tipo de discurso motivacional que Itsuki poderia fornecer para os outros estudantes. É a coragem de assumir o controle do próprio futuro.