Conjunto de Contradições

03/03/2026

Há uma forte tentação de buscar um significado para as ações de Bartleby, injetando na história elementos diversos que passam desde concepções históricas sobre as relações sociais do trabalho até a relação do ser humano com a própria saúde. Todavia, isto reduz a complexidade do texto e o torna panfletário ao ponto da sua essência provocativa ser um tanto suprimida.

Não se sabe a origem da inação de Bartleby. Há uma sugestão de estar relacionada com a natureza de uma atividade específica que ele executou no passado, situação propositalmente não explorada para criar o clima da narrativa. É nesta incerteza que surge para muitos a vontade de buscar significado, dado que aceitar o desconhecimento é inquietante. Porém, é na causa nublada que se desenvolve a grandiosidade.

O fato é que seu passado não é relevante, nem a causa exata da sua apatia. Nesta sociedade existe um acordo de cavalheiros entre os que nela habitam para fingir naturalidade diante de todo o contrato social. Trabalhar e ser produtivo, demonstrar personalidade e individualidade, alimentar-se com o dinheiro ganho, alugar uma casa ou construir uma família são situações que todos consideram como verdades doutrinárias, ninguém questiona que podem ser questão de escolha ou imposição.

Bartleby incomoda os personagens não por ser apático, mas porque sua apatia o faz rejeitar a doutrina da vida social, o que implica na sua não incondicionalidade. Ao declinar executar determinada tarefa há uma quebra do pacto de poder entre chefe e empregado. Quando se nega a sair do prédio, questiona-se a autoridade da propriedade privada do locador. Por não ter vontade de realizar qualquer tipo de trabalho e ser recolhido pela polícia como indigente, a noção de ser humano por essência é ferida e se desvela a centralidade do trabalho na vida social. E assim, ao chegar no extremo de perder a vontade de se alimentar, o idealismo do ser humano como potência em busca de sobrevivência em última instância é posto em cheque.

Ao preferir não fazer qualquer coisa, Bartleby faz com que os outros questionem a validade de alguém possuir o direito de negar algo. Surgem assim as contradições da sociedade, que se revelam intensamente quando existe alguém que não age igual aos demais. O chefe acredita ser bom para com seus funcionários, e de certa forma pode até ser, por isto acredita que suas solicitações de trabalho são razoáveis. Mas ao mesmo tempo que age com camaradagem, não se furta ao direito de vistoriar a mesa de Bartleby e seus objetos pessoais porque aquele local é sua propriedade.

Este homem que age com bondade e intransigência começa a questionar os próprios valores. Ele acredita ser preciso expulsar Bartleby e puni-lo por sua negação ao trabalho, mas ao mesmo tempo não consegue executar sua convicção, então opta por fugir e terceirizar o problema. Como não consegue lidar com as negativas de Bartleby, muda-se de lugar e deixa a missão com o próximo locatário, este que evoca a polícia para resolver. As pessoas não suportam lidar com a contradição, então se valem do poder disciplinar.

Indivíduos sobrevivem dia após outro executando o papel atribuído para eles no grande teatro chamado sociedade. Este texto escancara que esta peça é frágil demais, basta uma apatia para fazer com que os atores se questionem sobre a validade daquilo que interpretam. Bartleby se demostra altamente produtivo quando inicia o trabalho, mas é como se perdesse o fôlego ao passar do tempo até se tornar um fantasma que assombra o escritório. Uma assombração que nem sabe porque se agarra ao plano terrestre e continua em cena.

Bartleby não se considera exigente, mas nega todos os tipos de trabalho oferecidos. Ele não dá explicação, apenas prefere não fazer, revelando o estado avançado de uma letargia fatal. Esta é uma contradição explícita, pois a razão de Bartleby se colapsa com a sua emoção ao ponto dele sequer compreender o emaranhado sentimental que lhe assola.

A obra de Herman Melville assume um papel crítico não por didatismo ideológico, mas por expor continuamente o leitor às contradições existentes na narrativa. A própria incerteza da causalidade para as ações de Bartleby cria a sensação de que qualquer indivíduo pode ser afetado por semelhante apatia. Também é a imprecisão do porquê Bartleby atingir tal estado que contribui para colocar a crítica no lugar certo, de que é toda a configuração social responsável pelo seu infortúnio, não uma decisão individual ou um tipo de relação específica.

Respostas não são concedidas ao final da leitura, tampouco uma sugestão de solução que seria aplicável para se evitar a tragédia de Bartleby. O breve conto assume um papel provocativo que intriga os leitores. Trata-se quase de uma fábula da modernidade, absorvida por outros textos como Sociedade do Cansaço na busca de uma forma para tentar compreender a emaranhada teia social na qual somos intimados a participar. Das diversas contradições apresentadas, uma das mais intrigantes talvez seja que depois de tanto tempo Bartleby deixou de ser uma exceção para se tornar uma regra.

Bartleby, o Escrivão Herman Melville (1853, Estados Unidos) Minha impressão: Bom