Para Além da Verdade

06/03/2026

Redes segregam conteúdo para grupos de indivíduos, essa é a base do seu funcionamento. Tal característica é o conceito de superexposição ao positivo que fundamenta a manutenção da sociedade do desempenho, ou seja, a estrutura informacional moderna se alinha primorosamente com as necessidades desta organização social tal como causa e efeito. Assim, Infocracia é uma obra que pode ser analisada como evolução da Sociedade do Cansaço.

O modelo digital atua como um grande filtro para os usuários, que entrega apenas aquilo que o algoritmo de agrupamento identificou como coerente para determinada pessoa. Ninguém está fora do alcance da rede, que sempre traçará um perfil comportamental para quem acessa e o posicionará em grupos que sejam alinhados com seus gostos. Deste modo, informações só são entregues se promoverem o engajamento daquela persona que acessa. Isto implica na nunca exposição ao contraditório, que prende o indivíduo em um ciclo eterno de autoafirmação.

Neste momento é preciso recuperar que informação assume um conceito diferente para o autor. Ela deixa de ser algo com lastro no conhecimento e se torna dado processado, um axioma para além da verdade ou mentira com a função de produzir a autoafirmação identitária no indivíduo, que perde sua individualidade para se tornar usuário de um produto informatizado. Assim a informação entra em conflito com a razão devido seu caráter emocional, que a torna imune a crítica.

Este conceito é fundamental para a compreensão da obra, pois o regime da informação se cria ao endossar o aspecto de identidade do elemento aparentemente neutro gerado por dados, mas lastreado unicamente no cálculo algorítmico da psicologia comportamental para gerar o sentimento de validação no indivíduo. Perde-se a noção de verdade, pois a informação circula diretamente do criador para o receptor por meio de programas computacionais que entregam sempre aquilo que reforça as crenças e maximiza o engajamento. Em outras palavras, a função da rede não é transmitir conhecimento, mas viciar os usuários em seus próprios arquétipos.

O efeito desta organização informatizada de reforço positivo gera a destruição do debate como momento de discussão e refino de ideias. Pessoas segregadas em grupos homogêneos que foram alimentadas apenas com informações que reforçam suas convicções acabam por transformar elas na sua identidade. Este fenômeno de mesclagem entre ideia e individualidade é responsável pela substituição da razão pela emoção em todas as interações sociais. Como sentimento não pode ser negado, qualquer argumentação contrária às crenças estabelecidas do indivíduo é compreendida como ataque pessoal ao mesmo, pois suas concepções se tornaram a sua essência.

Grupos anti-vacina irão negar qualquer prova que retifique a eficácia das vacinas, porque a teoria contra vacinação é a identidade da comunidade que criaram. Este é o resultado final da sociedade de informação, que ao criar grupos reforçados com conteúdo emocional transforma os mesmos em zonas impermeáveis a razão. E assim estes grupos passam a ser atomizados ao ponto de perceberem o outro não como indivíduo com vivências diferentes, mas um inimigo que ameaça a coesão grupal.

A política neste cenário se degenera para uma briga de torcidas, uma batalha para descobrir qual candidato consegue mais engajamento. Discussões sobre políticas de estado ou propostas fundamentadas para a resolução questões de interesse geral, como saúde e educação, deixam o campo da racionalidade para serem emocionais e identitárias. Assim surgem, por exemplo, políticas armamentistas, que sensibilizam a individualidade de grupos eleitorais específicos, independente da argumentação ou apresentação de trade-off.

Ao longo do tempo, a maturidade do grupo o transforma em comunidade, um sistema fechado no qual a informação se movimenta em círculos. Nela a racionalidade se degenera completamente e resta apenas o sentimento identitário de pertencimento. A coesão interna é mantida por meio da fé nos arquétipos defendidos, enquanto a frágil harmonia externa é garantida pelas transações econômicas, as únicas nas quais indivíduos altamente egocêntricos aceitam para se relacionar com estranhos.

Grandes poderes econômicos se aproveitam desta nova ordem social para expandirem sua influência. A indústria do entretenimento engoliu quase tudo, esporte, educação, política ou saúde, qualquer assunto passa a ser espetáculo que os setores de publicidade e propaganda se empenham para transformar em engajamento. Psicologia aliada aos algoritmos de mineração se tornaram ferramentas centrais nesta sociedade passional.

Dados são o graal da publicidade, que consegue direcionar informações para as comunidades que mais engajariam com ela. Ratificando, informação não possui verdade ou mentira, é apenas conteúdo que reafirma concepções do grupo. Por isto todo o aparato criado pela união do alto volume de dados, psicologia comportamental, propaganda e redes se tornou uma máquina de paralisação da razão.

A frugalidade dos dados é outra característica importante. Com a mesma facilidade que se afirma algo, nega-se em seguida, se for preciso para alinhar o discurso com a identidade da comunidade. Esta incorporeidade digital e a sua facilidade de edição transforma o dado em partícula transitória que pode ser manipulada de acordo com a situação. Se uma foto já poderia ser editada para representar algo diferente daquilo que ela originalmente demonstrava, em tempos de inteligência artificial generativa não existe mais lastro para nenhum produto digital.

Se por definição a informação está além da verdade ou mentira, quando ela se digitaliza perde completamente a sua materialidade. Opiniões, falas, propostas de políticas públicas, artigos, ensaios e toda a produção humana passa a não ser confrontada, mas editada de acordo com o impacto emocional que gera na comunidade alvo, que esperneia como criança egocêntrica se seus arquétipos são questionados.

O conhecimento construído pelo processo crítico de síntese e argumentação não é mais possível nesta sociedade, pois a informação é editada se desagradar ao espetáculo. E não se trata de uma edição imposta por poderes externos, mas os próprios usuários internalizam a transitoriedade da informação ao editar textos ou apagar postagens que podem gerar tensão com o grupo.

Por fim, velocidade é o último conceito demonstrado na obra. Os indivíduos ansiosos pela entrega contínua das redes perdem a capacidade de refletir sobre qualquer assunto complexo. A entrega massiva de conteúdo informacional condiciona os usuários a apenas consumirem passivamente, com termos cada vez mais rasos e direcionados para o emocional. Postagens com limite de caracteres, vídeos virais, memes apelativos e reportagens sensacionalistas com títulos criados pelo setor de marketing são exemplos de como a comunicação se tornou entretenimento.

A infocracia é esta nova configuração social que não foi precisamente imaginada por nenhuma ficção científica. As pessoas não foram jogadas em guetos do cyberpunk. O governo não assumiu o papel de vigilante disciplinar. A Terra não foi afligida por um inverno nuclear. Os robôs não fizeram uma revolução. Todavia, o presente não se mostrou menos desolador, pois a humanidade está diante de um revés possivelmente não solucionável na direção da morte letárgica de toda a cultura e conhecimento.

Infocracia Byung-Chul Han (2021, Alemanha) Minha impressão: Perfeição