Refinada Crítica ao Absurdo

29/09/2025

Certamente este é o ápice da criatividade de Douglas Adams. No segundo livro da série ele não só acrescenta vida para os personagens, como gerencia muito bem a ironia, o non sense e a crítica social. E faz isso de forma que não fique nenhum pouco entediante ou chato. A leitura flui muito bem e nos importamos verdadeiramente com as aventuras e riscos de Arthur, Ford, Trillian, Zaphod e Marvin.

Mas qual o motivo para uma continuação, já que o "Guia do Mochileiro das Galáxias" pode ser considerado suficiente? Adams utiliza de uma brincadeira para motivar a continuação da história. Se a mente de Arthur for avaliada, podem descobrir a tão desejada pergunta fundamental para a vida, o universo e tudo mais. Assim, com pergunta e resposta, as aflições das pessoas em relação a própria existência se dissiparão. Tal fato seria um péssimo negócio para os psicólogos, que resolvem dar um jeito de eliminar Arthur para assim manterem os negócios. Esta é a brilhante motivação.

O humor está ainda mais desenvolvido, com um claro amadurecimento do autor para o segundo livro. Aquele non sense característico ainda continua, mas não é só uma piada boba, pois geralmente ele utiliza das situações absurdas para tecer críticas. Uma delas é que fazer um chá de qualidade é algo que deixa um supercomputador em loop, já criticando, em 1980, que as máquinas seriam incapazes de replicar a habilidade humana.

Outra passagem do humor refinado é no espetáculo no fim do universo, criado devido a uma fenda temporal que permite as pessoas viajarem até o momento do fim de tudo e depois retornarem. Claro que fazem disso um evento com direito a um apresentador para receber e animar a plateia. Em determinado momento, enquanto recebe os convidados para a seção do dia, surge um grupo chamado Jovens Conservadores, que o apresentador questiona se eles possuem a noção de que tudo é culpa deles, deixando a entender que foram suas atitudes que provocaram o apocalipse. Enquanto no primeiro livro percebemos um autor bem esquivo sobre assuntos políticos e sociais, aqui ele arquiteta diversas ironias para as contradições existentes na política do Thatcherismo vigente na época.

Ao longo do livro, Adams cria pequenas inserções para construir sua grande crítica final. Em determinado momento nos apresenta a história de um planeta muito próspero, mas que definhou porque a economia ruiu após encontrarem uma atividade muito lucrativa. Em pouco tempo todos só faziam aquilo e não existiam outros produtos ou serviços, levando ao colapso econômico e social.

Em outra oportunidade, conta como um espetáculo altamente rentável economicamente, mas destrutivo para o meio ambiente, foi executado através do fuzilamento de todos os que se opuseram ao projeto. O poder econômico é tão grande que passa por cima de tudo. Destruir um planeta inteiro não é nada comparado com o lucro que podem obter com a execução dos seus planos.

E todo o desenvolvimento é coroado com um dos melhores finais possíveis, que não somente expõe que a organização social está visivelmente defeituosa, como deixa uma sensação de impotência diante da inevitabilidade do fim da Terra. Em obras de ficção científica em que apenas colocam como postulado que os humanos sempre são atrasados cientificamente, aqui é perceptível que a população da Terra, agindo daquela forma, jamais conseguiria avançar.

A mitologia do livro

É particularmente curioso como o livro dentro da história, o Guia do Mochileiro das Galáxias (que mais está para uma Wikipédia), deixa de ser apenas uma piada para assumir um papel significativamente diferente. Ainda não se trata de um manual para exploração, muito menos um repositório de informações relevantes sobre todo o universo. Porém, há algo de mais profundo nessa produção gráfica.

A comparação com a Wikipédia não é leviana, a sensação é que Adams em 1980 criou algo que só seria popularizado em 2000, que é a possibilidade de um repositório informacional mantido pelos usuários, exatamente o que a enciclopédia livre se propôs a fazer.

Tomando as devidas precauções com o tom humorístico de Adams ao descrever o Guia, podemos observar certas semelhanças com a ideia da Wikipédia. O Guia não possui capítulos e sim verbetes, criados e atualizados pelos diversos usuários que viajam pela galáxia e contribuem para a expansão do conteúdo. Isto significa que é criado pela comunidade, sendo ela a responsável por avaliar o que está escrito e contribuir com a sua melhoria.

Obviamente que a falta de noção dos usuários fez com que a veracidade dos verbetes do Guia fosse ignorada, mas é extremamente conveniente possuir um repositório que verse sobre tudo o que exista ou, que pelo menos, dê alguma resposta para algo. Não interessa se está errado, basta estar ali. Esta é a crítica, feita em 1980, muito antes do advento das IAs generativas em formato de chat que respondem qualquer pergunta, sem o menor compromisso com a verdade.

Adams não cria o Guia como um exemplo a ser seguido, mas como uma provocação crítica da tendência humana de buscar soluções convenientes e fáceis para tudo. E quem diria que mesmo 50 anos após, a humanidade continuaria com o mesmo problema?

Talvez a maior crítica social das ficções científicas

Este segundo livro da série, apesar das suas fortalezas, utiliza de um elemento muito clichê das ficções científicas: a viagem no tempo e o loop temporal. Voltar no tempo é algo que permeia o imaginário humano e em histórias ele possui o fator de ser uma solução fácil para consertar os problemas. Felizmente Adams utiliza de forma diferente e com isso entrega, provavelmente, a maior crítica das ficções científicas.

Ao presenciarem o espetáculo do fim do universo, eles precisam voltar para o tempo original. Por mero acaso, resultado da intemperança de Zaphod, o grupo se separa, com Ford e Arthur perdidos em uma época desconhecida e em uma nave muito suspeita, que carrega milhares de seres em animação suspensa. A história dessa nave é uma brilhante e sutil crítica sobre a forma de percepção de valor na sociedade.

Determinado planeta avaliou que parte da população era composta por boçais, que não contribuíam em nada com o avanço da sociedade. Eram cabeleireiros, produtores de TV, vendedores de seguros, gerentes de RH, guardas de segurança, executivos de relações públicas, consultores e limpadores de telefone. Todas atividades intermediárias de serviço, que foram consideradas menores e não necessárias.

Este planeta decide se livrar desses indivíduos, colocando todos em uma nave com a desculpa de que foram designados para colonizar um novo local inabitável. Um plano perfeito, que limparia o lugar dos inúteis sem derramar sangue, tirando da sociedade a responsabilidade de dar condições para o desenvolvimento dessas pessoas. Assim foi feito e o planeta se viu, rapidamente, livre de um terço dos seus habitantes. Infelizmente, após alguns meses, a vida naquele lugar se extinguiu devido uma doença ocasionada por telefones sujos.

Ford e Arthur caem nessa nave dos inúteis e precisam seguir com eles até o destino da colonização, um planeta remoto e praticamente inofensivo em um canto muito afastado da galáxia. A nave com os renegados caiu na Terra e a sociedade humana que Arthur (e nós) conhecemos é originária desses indivíduos completamente consumidos por uma cultura boçal.

A crítica de Adams não está em chamar certas profissões de inúteis, uma vez que sem elas o planeta original sucumbiu, mas sim em demonstrar como a sociedade aliena certos trabalhos com uma burocracia que existe apenas para parecer que funciona. Ao chegarem na Terra, no lugar de agirem, começam a fazer reuniões para decidir o que fazer, declaram guerra contra povos que não existem e criam uma moeda a partir de folhas, que gera inflação e por isso decidem queimar as árvores para reduzir a disponibilidade de moeda.

Ford está agonizado com o que presencia. O grito de raiva 1 dele é compartilhado pelos leitores, que observa como tudo aquilo que os recém-chegados fazem é ridículo. São decisões claramente longes da racionalidade, que só fazem sentido em um modelo alienante e burocrático que estava se espalhando com o Thatcherismo na Inglaterra.

Sem forma de voltar, Arthur e Ford precisam aceitar que devem viver naquele mundo pré-histórico até o acaso sorrir novamente para eles. É um fim inevitável, a sensação de impotência total diante de uma cultura que não aceita crítica ao seu modo de agir, pois isso deslegitimaria a sua existência.

Arthur precisa aceitar que a sua tão estimada humanidade é, na verdade, completamente irracional. "Como seria um mundo descendente daqueles cretinos" é a dúvida dele, que prontamente é respondida por Ford que ele não precisa imaginar, pois ele viveu. Com isso podemos retornar para o primeiro livro, em que a casa de Arthur estava para ser demolida apenas por uma questão burocrática e que ele não tinha o menor direito de contrariar ou se defender. Até então, todas as decisões do ser humano foram tomadas sem o menor fundamento da racionalidade.

Adams não escreve para dar uma solução e nem usa elementos da ciência e da economia para fazer o livro parecer erudito. É um deboche, uma verborragia sobre como essa sociedade está com sérios problemas estruturais. Ele usa do absurdo para construir as situações para demonstrar que este mesmo absurdo não está longe da nossa organização social. A forma daquele povo renegado agir é a nossa forma de agir e enquanto não entendermos que algo está errado, não existe solução a não ser esperar pelo milagre em um planeta completamente desolado.

  1. Nenhum de vocês fez nada!?
O Restaurante no Fim do Universo Douglas Adams (1980, Reino Unido) Minha impressão: Muito Bom