Ficção premonição

20/07/2026

Salta aos olhos como a visão de distopia brasileira não emula o padrão do norte, que se fixa na ideia de corporações poderosas e opressões governamentais que beiram a paranoia. Nesta abordagem não é o avanço tecnológico que anuncia o fim, mas a relação da humanidade com a natureza resultado de um modelo econômico problemático. Fome, sede e calor, este futuro assusta porque não parece fantasia, parece um relato da sociedade do século XXI.

O modo de produção induz a degeneração ambiental, que leva a corrupção política e no fim resulta na perda de soberania. Curiosamente, este fantasma do país apenas sem autonomia diante das potências estrangeiras ainda assombra em 2026, o que novamente contribui para a sensação de não-ficção ao ler. Longe de tentar ser profético, simplesmente a leitura fria sobre o país, sem se prender ao viés ufanista estrangeiro sobre futuro, levou para esta história visceral.

Negação, controle de narrativa e psicologia social. Uma distopia que não se fundamenta na opressão e sim na perda da noção do indivíduo como ser participante da história. O tempo deixa de ser contato, restam apenas marcos de acontecimentos. A juventude cresce apartada da sociedade, apenas existindo como seres isolados em um mundo que não possui passado e nem futuro, apenas presente.

Desta forma, é irônico o protagonista ser um antigo professor de história. A dissociação do indivíduo chegou ao ponto crítico, no qual nem mesmo profissionais da área conseguiram se proteger da perda de significado do ser humano como elemento e influência do seu tempo histórico. Ao acompanharmos o ponto de vista não confiável do protagonista, percebemos o estrago feito por toda a degradação daquela sociedade, na qual não sabemos, nem por meio de um suposto profissional, o que realmente aconteceu no país.

O passado é parcamente revelado em episódios, também pouco confiáveis, de eventos específicos. Jovens instigados a corrupção para conseguir comida, derrubadas de árvores como catarse, carros sendo abandonados por proibições de circulação e uma sequência de pessoas com deficiência por contaminações alimentares. Esses fragmentos reforçam a perda de continuidade histórica: o país apenas vive de reação a eventos pontuais.

Nesta dinâmica, o povo se torna cobaia (ironia ou não, algo parecido ocorreu durante a pandemia de COVID). Seja nos alimentos sintéticos ou na solução para o calor avassalador, as pessoas são números e as soluções apresentadas pouco se importam com o indivíduo, apenas com a promoção de um resultado. Empilhar pessoas debaixo de uma gigantesca marquise é uma ideia absurda, mas faraônica o suficiente para um governo que não se importa em resolver o problema, apenas aparentar.

Todo o par solução e problema segue a mesma lógica de aparentar sem resolver. Isto é resultado do desenvolvimento máximo de um sistema já corrompido, que preza pela aparência e lucratividade acima de tudo. Disto sai o tom profético das situações apresentadas. Desmatamento, agrotóxico, segregação, racionamento de comida, falta de água, especulação imobiliária, demissões em massa, dependência econômica, subdesenvolvimento tecnológico e abandono de pessoas com deficiência. A obra apenas mostra as consequências de adversidades reais que este modelo econômico não consegue resolver.

O calor extremo, que encerra o elemento da ficção científica, não surge como ameaça resultado de um grupo específico que domina o mundo, mas é resultado de toda a exploração ambiental realizada até o momento. As florestas foram destruídas para a venda de madeira, as nascentes não foram protegidas e as terras cultiváveis apenas produzem grãos para exportação. Desta forma o povo vive na quentura, sem água e alimento, enquanto a terra disponível produz comida para outros países.

Neste caos social, a estrutura do protagonista narrador não confiável soma uma camada extra de significado. Escrito em fluxo de pensamento, não se sabe ao certo o que é descrição e o que é delírio. As lembranças dos acontecimentos se misturam com a propaganda gerada ao ponto dele não conseguir diferenciar o que viveu e o que foi invenção da mídia.

O fato do protagonista ser um ex-professor de história inclui um simbolismo importante, pois um indivíduo formado para lidar com registros e análise factual se torna completamente incapaz de se situar temporalmente no mundo. Se nem mesmo alguém capacitado foi capaz de sobreviver ao avanço da perda de significado dos fatos pela mídia, como pessoas comuns poderiam resistir? O ataque às ciências e disputa de narrativas foi a grande estratégia de destruição em massa.

Talvez a grande distopia não seja o calor extremo que derreta um indivíduo em minutos. Também não deve ser o governo entreguista que vende o próprio território para potências estrangeiras no intuito de obter lucros pessoais. O aterrador que assombra esse futuro é que a racionalidade se sublimou. Os registros se perderam, são apenas eventos lembrados por suas consequências midiáticas.

As pessoas se tornaram incapazes de se entenderem como parte de uma sociedade, apenas vivem isoladas na apatia do cotidiano. Nada é criticado, dado que não existe discurso público, tudo é ocorre dentro das próprias bolhas de trabalho, moradia ou bairro. Se a ficção é uma ferramenta para pensar o futuro, o que Byung-Chul Han definira em Sociedade do Cansaço e Infocracia no século XXI, foi previamente imaginado aqui, em uma ficção científica brasileira provavelmente não é tão aclamada e citada porque sua origem não é ocidental e sua língua não é o inglês.

Não Verás País Nenhum Ignácio de Loyola Brandão (1981, Brasil) Minha impressão: Muito Bom