Consumação existencial
29/07/2026Diferente das ficções comuns, não há o padrão de história com desenvolvimento de personagem, aventura ou criação de mundo. Quase um ensaio existencialista, a obra mergulha na psiquê de uma pessoa afogada no automático da vida moderna, que nunca questionou as convenções sociais existentes ou sequer foi capaz de confrontar as imagens que criou do mundo.
G. H. viveu até o momento alheia ao mundo, consequência da posse de recursos suficientes para não precisar se preocupar com a própria sobrevivência. Esse afastamento material do funcionamento da sociedade, marca de sua classe, levou a sua fantasia sobre si. Seu suposto gosto por limpeza compõe essa ficção, assim como a concepção de que a empregada deixaria o quarto dela sujo e desarrumado, pois era o esperado deste tipo de indivíduo.
Mergulhada nas suas concepções, entrar no quarto desocupado da empregada leva ao grande desespero humano: o confronto atroz da realidade com suas concepções. Ela passa a sofrer de uma implacável dissonância cognitiva, sem possibilidade de fuga naquela casa vazia. Sem festas noturnas ou pessoas para lhe amaciar o ego, sua consciência foi obrigada perceber que sua existência era mera formalidade que ela fantasiou.
O peso das contradições, de reconhecer que a sua definição de individualidade era completamente fútil, gera um quase delírio. Inicialmente, na ânsia de formular explicações que possibilitem salvar sua ideologia, busca no quarto limpo da emprega motivos ocultos para validar as fantasias, a resposta mais básica da dissonância.
Desde os desenhos até a validação da sua individualidade por meio das suas funções sociais, existe certa lógica sofista para criar uma narrativa que seja palatável e permita retornar ao estado anterior. Ela cogita destruir o quarto para poder afastar a materialidade que obriga perceber o componente farsesco da sociedade. Uma solução que aparentemente funcionaria, se não fosse o elemento máximo que impede totalmente qualquer tentativa de negociação com a própria consciência.
A aparição da barata é simbólica por retomar um medo primal e irracional, mas que não é dela. Ela jamais tinha encontrado o inseto, então como o asco existe? Ao ficar diante desta situação, percebe por meio dela que assim acontece com a sociedade. Não são verdades naturais, foram imposições que recebeu externamente. Tal como o nojo pela barata, criado por um imaginário social, a sua visão de mundo e papéis de classe também foram fabricadas. A partir de então não há mais volta, o impacto entre fantasia e realidade leva para a quebra da G.H. de aparências que apenas atuava no teatro da vida.
Desenrola-se a partir deste ponto uma introspecção que não é possível comentar. Mais vale acompanhar a redescoberta de um indivíduo que viveu por anos sem questionar a artificialidade do mundo moderno. G.H. percebe que a chamada sociedade é pura convenção, feita por meio de dominação arbitrária. Até o momento era cômodo fingir que existia ordem, pois sua própria classe permitia privilégios, mas estes parecem efervescer diante do fato de que o mundo existe para além do ser humano.
O reconhecimento da transitoriedade humana é inicialmente assustador, mas o processo de realinhamento cognitivo transforma o terror em emancipação. Isso acontece porque o pacto social se revela como formalismo artificial, não natural. Preconceitos, divisões e intrigas, tudo se torna irrelevante porque é criação social de uma humanidade que acredita na própria singularidade.
Retornando para a materialidade, G.H. inicia seu processo interno após uma constatação que interrompe sua rotina, um elemento fora do lugar que provoca o movimento sem volta do seu equilíbrio instável: a barata. O ser que detesta não por conhecimento, mas por influência que transpassa a sua consciência. Uma concepção de asco passada por imposição externa e pressão social não pode ser superada facilmente. Por isso a consumação da suplantação desta amarra antiga é em transe.
É preciso desligar as sensações nubladas pela interferência da sociedade humana artificial. Só assim a última barreira mental é rompida, permitindo a protagonista atingir uma iluminação existencial, que se difere por essência de uma epifania divina. Isto porque ela não perde o interesse pelo mundo real em troca de esperança espiritual, mas percebe que o universo concreto é maior e mais sublime que as ficções humanas.