Crescimento, Ideologia e Reconstrução
29/12/2025A proposta desta história é direta, mas de alta densidade. Rilla é a filha mais nova, aquela que representa a mudança de gerações. Seus desejos e objetivos não se alinham com a tradição da sociedade ou família. Ela não possui grandes ambições, não quer seguir nos estudos para conseguir um título de bacharelado, nem se importa com atividades consideradas típicas das mulheres, como culinária, costura ou cuidado com crianças. Este é o núcleo duro da personalidade dela.
No início da história, Rilla possui apenas 15 anos e é jogada em uma situação de caos social causada pela Primeira Guerra Mundial (na época, Grande Guerra). Toda a sua juventude será roubada e ela precisará amadurecer rápido demais, mas é neste processo que a narrativa se constrói com cadência. O crescimento comportamental de Rilla não se dá através da negação do seu núcleo duro, mas do entendimento da existência de coisas que devem ser feitas, mesmo a contragosto.
São quatro anos de luta e luto, preenchidos por separações e dores que ela precisa suportar, pois não há alternativa. A adolescente mimada, cheia de fantasias e sonhos, enfrenta a desilusão do mundo mais subitamente do que sua mãe. Anne teve paz e tempo para se desenvolver e amadurecer sua forma de interpretar o mundo, representado pelo tempo na faculdade e em Windy Poplars. Mas Rilla não teve essa sorte.
Enquanto gradualmente Anne percebeu que os deveres conflitam com a diversão, Rilla enfrenta esta realidade de um dia para o outro. É sua teimosia, teoricamente um defeito, que auxilia ela a aguentar os primeiros choques do conflito. Teimosamente se recusa a deixar Anne sozinha, enquanto Ingleside ficou vazia após todos os filhos e filhas saírem para auxiliar na guerra. Teimosamente cuida de um bebê recém-nascido, cujo pai se alistou e a mãe morreu logo após o nascimento, mesmo odiando crianças. Teimosamente usa um chapéu caro que detesta e lhe causa desgosto até o fim da guerra para evitar gastos. Teimosamente engole as lágrimas para não contagiar os outros com emoções negativos, aguentando os comentários de ser frívola e sem sentimentos.
Assim, acompanhamos a briga interna de uma menina mimada e egocêntrica, que se debate dia após dia contra as suas percepções de mundo. Ao mesmo tempo que se dedica às atividades de suporte dos impactos da guerra, precisa aprender a depender e lidar com as pessoas de forma diferente do que estava acostumada. Não se tratam mais de colegas ou conhecidas, que brigam por espaço e holofotes, mas sim um grupo que tenta sobreviver aos efeitos de um caos que assola a vida de todos.
Rilla tinha inveja de Faith porque esta era proativa e comunicativa, tornando-a facilmente o centro das atenções, de modo que a bela Rilla perdia admiradores. Todavia, é a magnanimidade de Faith, trabalhada no livro anterior, que contagia e auxilia aqueles que estão em dificuldades durante a guerra. Rilla percebe a importância do papel de Faith e entende que os sentimentos negativos que cultivou não são só contraprodutivos, mas expõem sua pequenez.
Por outro lado, Rilla simpatizava com Una, irmã de Faith, porque a menina sempre foi muito tímida, discreta e um tanto submissa. Era ao se impor sobre Una que Rilla parecia maior, uma dinâmica que gerava sensação de poder. Rilla sempre soube da paixão de Una por Walter, mas nunca se intrometeu, parte por idealizar muito o irmão e parte por desejar ter para si um segredo sobre Una, algo que mais ninguém sabia.
Este mesmo segredo, fonte de certa ligação e confidencialidade, transforma-se em uma das maiores dores narradas. Das crianças que brincaram juntas no Vale do Arco-Íris, Walter é o único que morre durante a guerra. Este acontecimento derruba Rilla, mas Una recebe um golpe pior. Por nunca expor seus sentimentos, guarda consigo um arrependimento sem fim, conhecido apenas por Rilla. Um segredo romântico se torna uma maldição, porque ela sabe que Una perdeu a felicidade muito cedo e jamais a recuperará. O conhecimento sobre a intimidade de alguém não é mais tão interessante, mas sim agonizante, o que contabiliza mais um aprendizado para a jovem que vê suas idealizações desmoronarem uma após a outra.
E neste ritmo de desconstrução das fantasias abruptamente, Rilla deixa de ser uma adolescente para se tornar uma mulher. Após intensos quatro anos, ela já está próxima dos 20 e muito mais forte para lidar com a vida que deverá ser reconstruída dos escombros deixados pela guerra.
O final é otimista, com os filhos retornando para Ingleside carregando as marcas de dor causadas pelo campo de batalha. A partir dali eles deverão recuperar os cacos que sobraram de si e iniciar a construção de uma vida melhor, com o sentimento de dever cumprido. Mas o doloroso para nós, leitores, é que mesmo ao terminar a leitura com tantas promessas de um futuro melhor, sabemos que o mundo reserva um acontecimento que transformará a Grande Guerra na Primeira Guerra e que o otimismo não se concretizará. Aqui é o fim da história e, por mais que amemos os personagens, devemos considerar que é o momento certo para encerrar.
Manipulação e ideologia
Talvez um dos temas mais interessantes que pode ser extraído deste livro é como a ideologia e a manipulação da mídia influenciam a opinião pública. Nós do futuro sabemos que a Primeira Guerra foi um conflito de mercados e interesses, diferente da Segunda Guerra que possuía o fator aglutinador da luta contra o fascismo para unir os países.
Porém, o livro escrito em 1921 (após o término da Primeira Guerra e durante o processo de independência do Reino Unido) apresenta uma forte ideologia militarista, que muito se mescla com o cristianismo. Desde o primeiro livro é perceptível a abordagem cristã, mas nesta história se tem uma visão de que a guerra está amparada pela fé, ou seja, uma legitimação espiritual que motiva as pessoas a se alistarem contra o mal demoníaco representado pelos Impérios Austro-Húngaro e Alemão.
Esta crença de guerra santa é o primeiro pilar para fazer com que a população aceite as consequências da guerra, como a perda de familiares, racionamento de comida e todo um país colônia que precisou parar sua rotina para servir em uma guerra muito longe do seu território. Mas somente fé não é suficiente para validar um sacrifício deste nível pela população.
A mídia entra com um papel fundamental nesta missão. Em diversos trechos é perceptível como as notícias atuam no sentido de convencer o povo que os alemães são cruéis, pagãos e sem moral. As vitórias são aumentadas e as derrotas minimizadas, em situações que parecem esquetes de humor, mas funcionam.
Os personagens inicialmente se questionam sobre a mudança de opinião nos jornais, uma vez que semanas antes falavam da importância estratégica de uma batalha, mas que ao ser perdida passou a ser noticiada como sem valor e apenas uma pequena derrota. Mas mesmo com a manipulação aparente das informações, as pessoas se permitem aceitar as notícias, resultado de um amálgama entre ideologia, viés cognitivo e dissonância cognitiva.
A guerra se tornou o novo normal, tudo gira ao redor dela. As fofocas tranquilas sobre a vida na cidade, muitas vezes protagonizadas por Cornelia e Anne, são substituídas por assuntos sobre batalhas e política distorcida. Anne e Gilbert, que levavam uma vida leve e divertida, encontram-se em uma casa vazia, dominada pelo medo da morte de algum filho amado. Sentimento este que conflita com a fé e ideologia do casal, que causa ainda mais sofrimento emocional. Afinal, mesmo que acreditem na existência de um sentido nobre, serão eles e não os políticos que enfrentarão a perda de filhos.
Neste contexto de manipulação ideológica, uma digressão é particularmente interessante. 28 anos após o lançamento de Rilla de Ingleside, George Orwell, escritor inglês, escreve o famoso livro 1984. Um dos principais temas abordados é a adulteração das informações por meio de um governo autoritário comunista, utilizando-se do Ministério da Verdade, um centro para controle da mídia. É curioso que um escritor inglês acuse outro governo de atividades das quais seu próprio país foi acusado, dado que na época da Primeira Guerra o Canadá (país em que acontece toda a série de Anne) era uma colônia britânica.
Retornando ao livro, a manipulação não se dá apenas no campo das ideias. Rilla é descrita como uma garota bonita, mas que tem problemas de fala (ceceio). Mesmo assim, ela é convidada para ler discursos pró-alistamento para os jovens. É uma sugestão sutil, em que a narrativa demonstra que os militaristas locais identificam a possibilidade de utilizar a beleza de Rilla como propaganda e arma de convencimento. Após os discursos, é dito que muitos acabam por se voluntariar para compor os soldados da linha de frente.
Rilla não percebe o porquê de ser chamada, apenas quer ser útil de alguma forma e mesmo achando estranho, faz os discursos com afinco, apesar de seu ceceio. A ideologia nubla as percepções de todos, que apenas querem sobreviver ao calvário que precisam suportar. E assim, homens acreditam serem guerreiros contra o mal e mulheres se orgulham por seus esposos, irmãos e filhos serem valorosos, corajosos e destemidos. Uma mistura entre fé, princípios, excitação e propósito, forjada por uma sociedade que luta uma batalha mortal por interesses que sequer representam o próprio povo.
A morte de Walter
Walter é um personagem emblemático, que representa o papel do diferente entre os filhos de Anne e também confidente pessoal de Rilla. Ele é sempre descrito como alguém soturno e muito preso ao mundo poético da ficção. Todavia, é certamente um dos mais estudiosos da cidade, tanto que este é o seu conflito com a guerra. Por conhecer a história, se questiona sobre a validade da batalha e reconhece a sua não virtude.
Ele sabe que não existe glória, apenas dor e destruição. Todavia, a sociedade em que está inserido pensa diferente e por isso ele sofre pressão, não da família, mas dos colegas de faculdade, dos professores e até dos moradores de Glen. Cartas vexatórias, acusações de covardia e afastamento social são resultados do não alistamento de Walter.
Nem mesmo alguém crítico como Walter está livre do poder da ideologia. Após a opressão social e uma catástrofe da guerra (aproveitada pela mídia para gerar mais propaganda de ódio), ele finalmente se voluntaria para a compor as trincheiras. Diferente dos outros, que foram logo no ápice da animação, sua partida é esvaziada. Jovens de uniforme cáqui deixando a cidade sem previsão de volta se tornou algo corriqueiro e nem parece mais magnânimo, a ideologia transformou o voluntariado em obrigação.
As cartas de Walter mostram uma transformação. Alguém que era tão averso ao mal parece ter se tornado um destemido soldado que enfrenta o perigo sem medo. É a vitória absoluta da dominação ideológica, que vai dobrar até mesmo a mais crítica mente em prol da coesão do grupo que defende uma guerra santa. Este é outro ponto máximo da narrativa, que demonstra maturidade em torno de um assunto sério, sem cair em maneirismos de tentar romantizar a tragédia ou o sacrifício.
Ainda, ao olharmos para o livro anterior, podemos perceber sinais da construção do temperamento diligente e explosivo de Walter, que para defender pessoas queridas, entra em uma briga feroz, da qual sai vitorioso (pelo menos na visão de terceiros). Seus conflitos entre pacifismo e proteção começam quando criança, em que ele percebe as limitações que seu pensamento poético possui.
Novamente, a narrativa é altamente militarizada e cristianizada. Não é por acaso que Walter é transformado, mas sim para defender a visão de que não existe forma de manter a paz sem luta. Walter no Vale do Arco-Íris briga para defender Faith das provocações de Dan, lutando pela sua paixão platônica que sempre amou irmão dele, Jem. Agora ele luta para defender um país do mal, demonstrando bravura e entregando a vida por este propósito. É a vitória da interpretação cristã maniqueísta e combativa.
Walter é um clássico herói trágico, que carrega elementos de melancolia e divergências morais. Suas falas sempre foram envoltas em tristeza e desapego do mundo real, algo que se torna mais intenso durante seu tempo na linha de frente. As cartas que ele envia para Rilla são marcadas por conformismo e baixo apego à vida, quase como um suicida.
Se um pouco de anacronismo poético é permitido, Walter apresenta sintomas de uma pessoa depressiva. Em 1921, ano em que o Rilla de Ingleside foi lançado, provavelmente não era um assunto conhecido e discutido, de modo que afirmar a vontade ativa da autora de escrever um personagem com este tipo de condição é errado. O que podemos comentar é como que, por coincidência ou outra fatalidade do destino, temos em Walter um personagem complexo e com problemas factíveis, manipulado pela política daquela época e não por uma distopia paranoica. Não é o pânico moral do futuro que gerará dores, é o presente aceito que as fabrica.