Estagnação Positiva

23/02/2026

Há uma mudança de paradigma na sociedade, esta é a tese exposta pelo autor. A antiga organização pautada no controle e na repreensão deixa de existir para dar lugar a uma nova estrutura organizacional fundamentada no desempenho. Os indivíduos não vivem sobre a lógica de limitação e cerceamento da liberdade social, mas em um frenesi contínuo de aumento da eficiência produtiva, de modo que vale tudo se o resultado for otimizado.

Esta nova forma de sociedade não surge por acaso, mas para atender a demanda de crescimento constante do capital. Ao perceber que o controle restringia a busca por sempre mais produtividade, a substituição desta lógica pela positividade do desempenho é vantajosa porque remove qualquer barreira para o aumento incessante da produção.

Se antes os funcionários tinham horário para entrar e sair das fábricas, ao sublimar a relação de trabalho, seja por meio de contratos para prestação de serviço ou remuneração variável anexada aos indicadores de produtividade, não existe fim para a labuta. O indivíduo é solapado por uma cultura de que precisa render sempre mais para conseguir manter a sua individualidade como membro respeitável da sociedade. A liberdade de trabalhar quando quiser se revela como trabalho infinito.

Nesta configuração a contradição é um veneno, por isto ocorre a repetida exposição da positividade, que deve ser entendida como um reforço (positivo) para as próprias convicções do indivíduo. Nada se torna impossível, com esforço e trabalho duro é possível atingir níveis sempre maiores de status e remuneração. O conceito de meritocracia difundido nesta ideologia auxilia na construção do imaginário que trabalho e retorno são causa e consequência, normalizando a exaustão em detrimento de um futuro melhor.

O problema é que o futuro não chega, pois esta sociedade do desempenho desencadeia distintas doenças no indivíduo. Não é mais a destruição do corpo com o cansaço físico, mas a dilaceração da mente em um estafamento psicológico da pessoa. Sem acesso ao contraditório, os membros desta sociedade adoecem por reproduzir incessantemente a ideia de ultra produtividade sem criticar a sua eficiência real para si. Ao ter contato apenas com o positivo, de que nada é impossível, não realizar os próprios sonhos é uma falha pessoal e resulta em frustração.

"A lamúria do depressivo de não conseguir só encontra valor em uma sociedade que acredita que tudo é possível."

No nível individual o resultado são as enfermidades mentais, como a depressão e o burnout. Porém, no âmbito macro, o que se tem é a paralisação do avanço cultural e científico da humanidade. A ultra positividade é por definição negacionista, pois não aceita o contraditório e rejeita tudo o que não pode ser utilizado em benefício próprio (pragmatismo). Pesquisa de base, que não gera produto ou aumenta o lucro, não possui lugar nesta sociedade do desempenho, de modo que a ciência nunca rompe com o estado da arte, mas a penas o circunda.

De modo análogo, a cultura, representada principalmente pelas artes (literatura, música, teatro, cinema e etc.) só consegue espaço quando reforça a ideologia dominante. Desta forma a indústria do entretenimento coopta toda a produção artística para que seja homogênea e ressoe a mensagem positiva de um mundo sem limites, meritocrático e altamente passivo na crítica ao seu andamento. Livros e filmes com o mesmo conteúdo se tornam padrão porque o indivíduo se torna consumidor que não quer (e não deve) ser exposto ao contraditório, pois isto levaria ao colapso social e cognitivo.

O desempenho como finalidade e a positividade como meio resultam na necessidade de agir rápido, de responder sempre qualquer menor estímulo instantaneamente. Velocidade na tomada de decisão para aumentar a produtividade, vídeos curtos para trazer informações pontuais altamente replicáveis e uma malha de comunicação que acelera a transmissão de informação contribuem para o palco de uma sociedade sempre atenta em tudo, como um animal selvagem que precisa sobreviver a diversos perigos existentes ao seu redor. Este estado de alerta impede a atenção plena em qualquer assunto, reduzindo a capacidade reflexiva dos indivíduos que apenas sobrevivem o hoje. Sem foco não existe ciência e cultura.

Este estado de alerta permanente leva ao caso da multitarefa, outro elemento altamente valorizado pela sociedade paranoica por desempenho, mas que gera retrocesso ao estado de sobrevivência animal. Ainda, na ambição de desenvolverem tal técnica importante para o mundo social, normalizam-se o uso de fármacos com o objetivo de potencializar a capacidade cerebral, sexual e afins. Aqui é a indústria farmacêutica que explora este mercado da dopagem para aumento da eficiência pessoal, independente do impacto para o indivíduo, que se vangloria de atingir altos níveis de produtividade.

Caso esta estrutura não seja superada, a visão de horizonte do autor é a decadência da sociedade por estagnação, com acúmulo de distintas enfermidades psicológicas. Os indivíduos sempre ativos não conseguem tempo para refletir sobre a vida para além do trabalho e da produtividade, o que implica no não engajamento crítico por questões mais complexas como sociedade e desenvolvimento. Então, se as pessoas não racionalizam sobre o futuro, este está destinado a morrer com o presente.

Sociedade do Cansaço Byung-Chul Han (2012, Alemanha) Minha impressão: Muito Bom